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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ela estava encostada na árvore, transpirando desespero e cuspindo lágrimas enquanto a última coisa que ela via dele era sua sombra, que a cada passo aumentava.
Ele que há uns minutos a inspirava pra escolher sua melhor roupa, a escurecer brilhantemente seus olhos e deixar seus lábios como de quem acabara de ser beijada, estava deixando-a.
Ela que por ele há dias sambava deitada, sentiria seu corpo frio nas noites e ficaria em silêncio sozinha.
Não diria nem escutaria palavras de amor, não daria amor, não teria amor, não faria amor, nem mesmo queria mais o amor.
O sentimento que a fazia escrever cartas poéticas, lhe derramar lágrimas de orgulho, sentir o perfume da mais escura flor, esse sentimento ela negava.
E enquanto ela passava as mãos pelos cabelos lembrava dele elogiando-o e sentindo o belo perfume do shampoo de bebê, aquele de cereja, o preferido.
Sua primavera virara outono, daqueles de flores e folhas bem secos.
Ela queria encolher aquela sombra, queria juntar com a dela e transformar em uma só novamente.
Ali, paralisada, ela gritava pra ela mesma que o fim havia chegado.
E ela que uma noite acreditou no 'para sempre' mesmo que sem o 'felizes'.
Tudo acabara ali, naquela grande sombra.
Mas é assim mesmo, acontece, um dia o fim chega.









Mesmo que só pra um dos lados.
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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O primeiro choro

Ela era uma mulher com menos de vinte anos. Acabara de dar fruto à uma aventura, o fruto foi indesejado.
Ela acabara de sair do quintal, estava em sua cama com o fruto ao lado.
Naquele momento, a sós, ela pensou o quanto aquele dia poderia ser diferente.
Olhava aqueles olhos ainda pouco abertos, aquela boca sem controle de saliva, aqueles dedos mexendo espontaneamente.
Ela sentia um certo desespero, tinha em sua frente uma responsabilidade.
Tinha condições financeiras de sustentá-lo, mas não bastava.
Ali estava alguém que acabara de ver a luz pela primeira vez, alguém que daria muito amor à ela, alguém que receberia, dela, muito amor, alguém que o mundo iria ter que receber de braços abertos ou não.
Era esse seu medo, os braços cruzados do mundo.
Não bastava o amor, a educação, o dinheiro, o escorregar nas ladeiras. Havia o mundo e, pior que isso, os braços.
Seria estranho entregá-lo assim, como um dia ela foi entregue.
De repente, ao olhar um instante para si, ouviu o som que mais a incomodou no mundo.
Não por ser agudo, mas por vim de onde veio.
Aquele som teve o poder de rasgá-la o peito com sua primeira nota.
Ela segurou o fruto nos braços, balançou da esquerda pra direita delicademente e deu-lhe o seio.
O som parou.
Era fome.
A primeira reclamação de fome. E de um dos vários tipos de fome que um ser sente.
A fome de viver mal havia começado e ele já estava reclamando por outra fome.
Naquele momento, na cama, com os seios de fora, com seu fruto preferido, ela percebeu o descruzar dos braços do mundo.
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Fui feita pra viver de sonhos.
Não aqueles de se tornar uma pessoa famosa ou ganhar o prêmio recorde na loteria.
Mas aqueles que temos depois que fechamos os olhos.
É lá que eu queria estar na maior parte do dia.
Existem pessoas que eu só conheço neles e me orgulho disso.
Uma vez me falaram que os sonhos simbolizam o desejo.
Eis a explicação pra eu respirar quando eu acordo.
Gosto de sonhar, sonhos bons é claro.
Mas aquela aventura de correr e nunca chegar a lugar algum também me interessa.
Será que quando morremos continuamos sonhando?
Se sim, não terei problema nenhum com a morte, ela até será bem vinda (se for esse o caso).
Se não, prefiro o sacrifício de acordar todos os dias, desejar algo e tê-lo de maneira (in)esperada nos meus sonhos.
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domingo, 10 de outubro de 2010

Pode faltar luz agora, daqui a algumas horas vem o sol.
Pode o sol se esconder, as nuvens trarão gotas belíssimas vista da janela ou de outro ângulo perto do verde.
Pode faltar o beijo, existe o abraço.
Pode faltar o sorriso, existem as lágrimas.
Podem faltar os olhares, existem as palavras.
Pode faltar o silêncio, existe o latido.
Pode faltar o belo, existe o diferente.
Pode faltar o frio, existe o vento.
Pode faltar o físico, existe a mente.
Pode faltar a obrigação, existe o favor.
Podem faltar os segundos, existe o profundo.
Pode faltar o presente, existe a memória.

É clichê, mas a felicidade está sim nas coisas mais simples.
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sábado, 2 de outubro de 2010

Ai meu poeta, quanta falta me fazes.
Te escutar me alivia, te sinto bem aqui ao meu lado, com teus lábios perto do meu ouvido cantando tuas poesias...
Que vontade que eu tenho do impossível!
Não tenho nada pra me confortar quando eu lembro que nunca te tocarei fisicamente.
Até Chico eu tenho esperança de encontrar um dia, mas tu meu poeta, tu estas longe e perto ao mesmo tempo.
Como eu queria um dia poder olhar dentro dos teus olhos e declarar todo o meu amor.
Acho que é isso que me falta, todos os dias eu sinto falta de alguma coisa, agora já sei do que.
Me dói tanto saber que nunca cuspiremos na mesma bandeira, que nunca dividiremos o mesmo copo de uísque e nunca acenderei um cigarro em tua boca.
Mas eu te amo, é exatamente essa palavra pra ser usada, amor!
Chamem-me de louca, infantil ou qualquer outra coisa, mas eu sinto o que sinto.
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